Pavilhão Mato Grosso: um manifesto sensorial sobre território, memória e pertencimento.
Na primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB), realizada no Parque Ibirapuera, em São Paulo, a diversidade do país ganha forma em 27 ambientes que traduzem diferentes territórios, culturas e formas de habitar. Entre eles, o Pavilhão Mato Grosso, assinado pelo Studio Ohma, se destaca como uma experiência profundamente conectada à paisagem, à memória e à identidade brasileira.
Selecionado por meio de concurso nacional, o escritório foi escolhido para representar o estado em um processo conduzido por arquitetos com registro ativo no CAU. “Ser eleita por outros arquitetos para assumir o pavilhão do Mato Grosso é um reconhecimento que reforça a relevância do escritório no cenário contemporâneo da arquitetura brasileira”, destacam os profissionais Nicholas Oher e Paloma Bresolin.
A partir de uma relação íntima com o território — especialmente pela trajetória de Nicholas, natural de Cuiabá — o projeto nasce como uma leitura sensível do bioma do Pantanal. Mais do que um espaço expositivo, o ambiente se constrói como narrativa. “O pavilhão propõe uma reflexão sobre preservação cultural, ambiental e simbólica, tendo como principal referência o Pantanal”, transformando o espaço em uma experiência imersiva.
Implantado em um loft de aproximadamente 100 m², o projeto articula arquitetura, design, paisagem e arte em uma composição que valoriza a brasilidade como potência criativa. A paleta cromática percorre verdes, azuis, tons terrosos e nuances quentes, reforçando essa conexão com o território ao evocar rios, vegetação, fauna e solo.
A materialidade, por sua vez, desempenha papel fundamental na construção dessa narrativa. Elementos naturais e texturas são explorados de forma a criar um ambiente vivo, onde cada escolha carrega intenção e significado. Nesse contexto, o piso também assume protagonismo.
A paginação em listras, aplicada na área do dormitório, foi desenvolvida com dois tons de laminado da coleção Nesto - Entardecer de Outono e Brisa de Verão, criando uma leitura visual dinâmica e contemporânea. Mais do que um recurso estético, a composição traz ritmo ao espaço e reforça a narrativa do projeto, conectando diferentes áreas e conduzindo o olhar do visitante de forma sutil. A alternância das tonalidades amplia a percepção do ambiente e traduz, em superfície, a própria diversidade do território representado.
A presença de artistas cuiabanos e mato-grossenses amplia ainda mais essa camada narrativa, incorporando ao espaço obras que traduzem a cultura e a sensibilidade da região por meio da arte contemporânea. Ao mesmo tempo, o projeto é uma homenagem a Fundação Jane Zanetti, cuja atuação voltada à preservação da fauna e flora inspira conceitualmente o pavilhão.
Como destacam os profissionais, “mais do que um projeto expositivo, é uma experiência que convida o visitante a olhar com mais atenção para o que, muitas vezes, passa despercebido a olho nu.”
Ao final, o Pavilhão Mato Grosso se revela como um manifesto — não apenas sobre arquitetura, mas sobre pertencimento, memória e futuro. Um espaço onde matéria, território e narrativa se encontram, reafirmando a arquitetura como linguagem capaz de conectar pessoas, histórias e paisagens.